Depoimento 02:

Fabiana. M. M., 21 anos, (Niterói, RJ): Escrevo esta mensagem para todas aquelas que sabem o valor das decisões positivas e libertadoras que afirmam a vida e as lutas pessoais e coletivas, do passado e do presente. Faço deste relato um espaço para expor minha experiência pessoal pela decisão de fazer um aborto seguro, mas, infelizmente, ilegal. Não quero me ater apenas ao cerne da questão, “comprei, chegou rápido, era o autêntico, usei, deu certo”. Quero falar mais sobre por que cheguei nessa decisão (de abortar) e falar um pouco sobre essa proibição absurda que tem no Brasil, sendo que em países tais como Alemanha, França, EUA, Japão, e até no Uruguai é legalizado! A proibição não é por causa de saúde, ou de ciência, mas sim por causa de ideologias religiosas! Primeiro, sou mulher, jovem, negra. Tenho uma formação pessoal e profissional em que pude, em muitos momentos, refletir sobre a construção da imagem da mulher negra na nossa sociedade. Logo cedo, muito jovem, ainda estudante num colégio de classe média em que era a única negra da sala de aula, descobri que teria que fugir de todos os estereótipos e construir uma imagem autônoma de mim mesma e do que é ser negra e mulher numa sociedade que insiste em reproduzir e naturalizar o machismo e o racismo.

Isso porque quando tomei a decisão de interromper a gravidez não pensei apenas em mim, não afirmei apenas o meu corpo, não deliberei apenas pela minha saúde física e mental. Essa decisão foi tomada e decisivamente afirmada pelo encontro que tive e tenho com todas aquelas que estão dispostas a construir um modo de vida que responda à insolência de um passado e um presente vilipendiosos, usurpadores e contaminados de ódio e preconceito levados a nível patológicos. Por uma história que não é só minha, eu decidi interromper a gravidez… Em nenhum momento do processo tive medo ou angustia. Em nenhum momento sofri censura psicológica no meu íntimo; expediente que manipula muitas de nós a ter medo, sentir culpada e humilhada por uma ação ou decisão que é nossa, simplesmente nossa.  Enfim, guiada pelos encontros e pela necessidade de afirmação num lance decisivo passei pelo processo de interrupção da gravidez sem traumas, sem me machucar, sem me diminuir, nem me censurar. No fim, passei por todo o processo com meu corpo refeito e minha mente renovada, pois desde então pude redefinir e reforçar a ideia, o discurso e as ações para continuar defendendo a autonomia das nossas decisões e dos nossos corpos. Porque interromper a gravidez não é um bicho de sete cabeças e, definitivamente, não pode ser uma condenação que nós mesmas nos impomos! Por causa de ideologia, de religião de costume e dogmas. Não posso deixar de dizer que em tempos sombrios como os nossos a luta pela legalização do aborto deve ser gritada, ecoada junto com outras forças afirmativas que se juntam pela construção de um mundo sem opressão. Sou imensamente grata a esta grande rede lutadora que não tem medo de afirmar a autonomia e a liberdade das mulheres e dos seus corpos. Porque não estamos apenas em um bairro, em uma cidade, em um país. Estamos espalhadas por todo o mundo. Porque enquanto for negada a liberdade a uma única mulher, seremos todas clandestinas!

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